‘Saúde em crise’ seria contra-senso se não fosse no Brasil. Se não fosse em Ribeirão Preto, seria culpa do PT. Aqui, dizem, a culpa é do buraco da prefeita. Ops!
Juvenal, o anti-social, resolveu aprontar das suas mais uma vez. Com alguns sintomas de gastrite, resolveu marcar uma consulta na Unidade Básica de Saúde.
Resolveu ir a pé, já que a van, que costuma passar pelas redondezas, vinha sempre com meia dúzia de seus colegas do campo. Para Juvenal, era uma multidão pronta para falar asneira e irritá-lo.
Apesar de se manter distante da sociedade, Juvenal sempre lê os jornais que chegam a sua propriedade. E sempre assiste aos jornais televisivos. Na solidão de sua caminhada lembrou-se da situação precária que estava passando o sistema de saúde em Ribeirão Preto: falta de médicos, demora no atendimento, greve dos servidores, discussão sem solução entre sindicato e prefeitura, e por fim, o acordo com a Oscip-Inab (Organização Sociedade Civil de Interesse público - Instituto Nacional Amigos do Brasil) por um ano, que iria administrar os médicos da rede de saúde básica.
Como gosta de fazer, travou uma discussão entre sua mente eremita e sua consciência sociológica.
- É assim mesmo. A gente passa a vida pagando imposto, tributo. Quando tem que usar um serviço do governo é a gente que sofre.
- Mas, pelo menos, quando liguei para marcar consulta me atenderam bem. Mesmo tendo tanta gente doente por aí, marcaram para hoje, dois dias depois. Ahhh... Tá bom...
Do noticiário, Juvenal se lembrou da empresa que a Prefeitura firmou acordo, e a promessa de que, contratando mais médicos, 48 no total, o atendimento seria melhor. Com isso, seriam cinco em cada turno. Não demoraria até 9 horas para ir embora, como já aconteceu. A média agora seria de 1 hora, diziam eles. Juvenal, carente como só ele, solta a pergunta. Para ele mesmo, claro.
- Mas será que vão me atender bem? Da última vez que fui fazer aquele exame do toque, o médico foi muito grosso comigo. Doeu na alma.
- Bom, mas tinha que fazer, né. Até o ‘Borni’, do jornal, disse que já fez. Tenho que ir ao médico, ele tá preparado pra ajudar a gente.
- Mas, essas dores de estômago estão voltando. Dessa vez, não saio de lá sem marcar minha cirurgia.
E foi assim durante os oito quilômetros que separavam Juvenal do posto de saúde. Chegando lá, entregou seus documentos e perguntou à recepcionista se demoraria para ser atendido. A resposta, sutil e educada como de toda atendente de serviço público:
- O senhor tá mal ou tá muito mal? Se estiver sangrando tá muito mal. Aí coloco o senhor na frente.
Juvenal olha para os outros usuários que aguardam a consulta. Vê uma senhora que não respirava, um senhor com uma enorme faixa na cabeça, uma moça grávida com sangramento, uma criança com cortes enormes na testa e nos braços. Uma mãe desesperada com o recém-nascido que não parava de chorar. Juvenal coça a barba e responde à atendente.
- Minha senhora, se eu estivesse bem, não estaria aqui, não é? E se a senhora soubesse a diferença entre bem e mal, saberia que tá do lado errado do balcão.
Juvenal pegou sua senha, sentou no canto mais extremo da sala, isolado. Observando a criança de colo que não parava de chorar, resolveu ir até a mãe e disse.
- Minha senhora, coloca o neném de bruço, segura o peito e a cabeça dele bem firme e quando ele parar de chorar, começa a fazer um chiadinho com a boca.
Em menos de dois minutos, o bebê parou de chorar, só ficou gemendo com a possível cólica que sentia. A lágrima que escorria no canto do olho da mãe foi o ‘muito obrigado’ dela.
Juvenal foi chamado 27 minutos depois. Entrou no consultório. Um médico gordo, maior que sua mesa, recebe o paciente:
- Tudo bem, seu Juvenal?
- Vai começar? O que o senhor acha? Que vim só fazer uma visita?
Sem olhar na cara de Juvenal, o médico faz uma seqüência de perguntas. Vai anotando tudo nas planilhas à sua volta. Juvenal se cala por alguns instantes. O médico também, mas continua anotando.
- Senhor Juvenal, a sua cirurgia de hérnia de hiato ainda não foi marcada. Vou indicar uma coisa muito boa para o senhor. Se comer massas, bebidas gaseificadas, frituras e começar o mal estar, o melhor remédio é uma maçã. É tiro e queda. Eu também tenho isso e como muita maçã.
Novamente, Juvenal coça a barba, pensa um pouco e responde:
- Tá bom, doutor. Mas eu quero curar minha gastrite, não quero ficar com 250 quilos. E outra coisa, isso que o senhor receitou nem tem na farmácia...
Daniel Torrieri, João Pitombeira, e Marco Bellizzi.
Alunos do 4º semestre de Jornalismo.