
Ceará e pelo menos mais três estados nordestinos devem instaurar Conselhos para fiscalizar a ação da mídia. Processo já está em andamento no estado de São Paulo.
Após o Ceará, os estados de Alagoas, Piauí e Bahia se preparam para criar conselhos de comunicação com a intenção de monitorar a mídia. A proposta de criação deste Conselho foi feita pela Conferência Nacional de Comunicação convocada pela gestão Lula. O governo de Alagoas, dirigido pelo PSDB, pretende transformar um conselho consultivo em conselho deliberativo, cujo poder será semelhante ao aprovado no Ceará. Na Bahia, governada pelo PT, o conselho agiria junto com a Secretaria de Comunicação Social do Estado. Já no Piauí, foi proposta a criação de um órgão para vigiar e rever as regras de radiodifusão. Essa proposta foi feita por um grupo convocado pelo ex-governador Wellington Dias, do PT.
Com a vitória da petista Dilma Rousseff, o partido de esquerda detém, agora, poder para concretizar essas propostas, inicialmente criadas no governo Lula, também do PT. Para o jornalista José Antonio Bonato, a criação do Conselho não deve ser vista com bons olhos. “A mídia não deve ter um controle, deve ter uma regulação. Esse controle de mídia não soa bem e vem em um momento inoportuno e pós-eleitoral pois vem ao encontro das críticas que o Presidente Lula fez à imprensa”. Para a socióloga Elizabete Novaes a criação desse Conselho pode resultar em grandes problemas: “Da mesma maneira que não há limite quando não há censura, também acaba não existindo um limite para a própria censura e esse é o risco maior.” A socióloga acrescenta que a regulamentação do conteúdo veiculado pode ser proveitoso quando feito por profissionais da categoria e apenas para orientar e garantir o papel social que é esperado de um veiculo de comunicação e não como uma censura à imprensa: “ A erotização infantil é uma questão que preocupa. Submeter a criança a certos programas e certos conteúdos que não são adequados a ela é extremamente prejudicial”.
O presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Ophir Cavalcante afirmou que a criação de conselhos para controle social das mídias é inconstitucional. Segundo Cavalcante, a OAB vai ter um papel crítico e ativo para impedir que esse tipo de ação, que fere a Constituição.
O ProjetoSegundo o texto do projeto, o Conselho de Comunicação Social deve acompanhar a produção pública e estatal de comunicação, o monitoramento de veículos locais de comunicação e a criação de uma política estadual de comunicação. Ainda no texto do projeto criado no Estado do Ceará, o Conselho também deve “monitorar, receber denúncias e encaminhar parecer aos órgãos competentes sobre abusos e violações de direitos humanos dos veículos de comunicação”.
Um dos problemas que a criação do conselho pode gerar é com relação às sanções. Não há nenhuma informação no texto do projeto do Ceará sobre quais órgãos serão responsáveis pelo julgamento das denúncias e não há, também, quais serão as punições aplicadas.
O conselho será formado por 25 pessoas, sendo oito proprietários dos meios de comunicação, sete representantes de governo, Assembleia e escolas de comunicação e mais dez pessoas da sociedade civil, envolvendo jornalistas e membros de movimentos estudantis.
SIP e a CensuraA SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa) declarou 2011 como o “ano pela liberdade de expressão” devido à grande preocupação que a organização manifestou com as tentativas seguidas de controle da mídia em vários países da América Latina.
Sobre o caso do Brasil, a SIP orientou os governos a vetar qualquer lei que possa de alguma forma controlar os meios de comunicação e impedir o livre fluxo de informações e condenou o conselho criado no Estado do Ceará e que poderá se estender para pelo menos mais três estados do nordeste brasileiro. A entidade ainda cobrou do Conselho Nacional Justiça medidas imediatas para revogar a censura aplicada ao jornal O Estado de São Paulo, onde proíbe que o veículo publique qualquer informação sobre a investigação da Polícia Federal sobre Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney do PMDB do Amapá.
A SIP reuniu-se na semana passada para a 66ª Assembleia Geral na cidade de Merida, no México e reuniu editores e executivos de veículos de comunicação das Américas. Além do caso do Brasil, a entidade manifestou também preocupação com a adoçam de leis de controle das mídias no Equador e Uruguai e criticou os casos já evidentes na Argentina, Venezuela, Bolívia e Nicarágua.
RepercussãoA criação do Conselho no Estado do Ceará levantou debates e questões entre vários segmentos da sociedade, especialmente entre jovens. O estudante de Jornalismo, Alessandro Dinamarco, afirma que “é interessante” por em debate o grande poder que a mídia exerce atualmente, mas não se mostra favorável à criação do Conselho: “A ideia de se ter um Onbudsman de todos os jornais, como acontece com cada área profissional, com o controle da qualidade do jornal, é bem interessante.”
A fim da necessidade de formação para que o jornalismo seja feito e o fim da Lei de Imprensa, entre outras medidas, provocaram uma sensação de censura velada, como disse o estudante de comunicação João Gabriel: “Vivemos em uma ditadura escondida, onde já há censura sem haver uma censura pré-estabelecida”. A grande preocupação dos jovens é que, por meio desses Conselhos, uma censura, como na Ditadura Militar, possa ser novamente instaurada: “Monitoramento de informações [uma das propostas do Conselho] é algo muito perigoso, especialmente porque o Brasil vive um passado recente de Ditadura Militar”, afirma Laura Bimbato, estudante de Ciências Sociais.
Rafaela Malpeli